Antônio José
Blogs - Arte em prosa e verso   Antônio José

Publicado em 01 / 08 / 2020 às 09h04 |

Gente que a gente não vê

Enxergue além dos seus olhos: veja com a mente livre

Operários - Tarsila do Amaral (Google Imagens)

 Operários - Tarsila do Amaral (Google Imagens)

 Você já olhou para todos os lados? Há mais vida do que a gente costuma enxergar! Nas ruas, no trabalho ou em casa, tantas pessoas são ignoradas por nós porque aprendemos a ver a vida virtual e não enxergamos mais o mundo real. Pois eu lhes presento três vidas que existem e a gente não vê.

O vivo-morto

Seu Gilberto, 45 anos, casado, mora no bairro Califórnia, Campo Maior (PI). Três filhos, um rim apenas, coveiro por tradição. Sabe quantas pessoas já enterrou no cemitério da cidade. "Mais de 100 pessoas: gente rica e pobre, feia e bonita, todo mundo acaba na cova, meu amigo!" Nada tímido, ele mostra as mãos calejadas da labuta com a morte dos outros. Nesse tempo todo trabalhando em cemitério, afirma nunca ter visto alma.

O que mais lhe dói na na vida é fazer enterro de criança, de adolescente. "Uma pena, coisa triste mesmo porque essas pessoas tinham tanto para viver!..." Na maioria das vezes, as pessoas sequer notam o homem por trás da pá. Quando chega o dia de Finados, é aquele mundaréu de gente a visitar o cemitério e nem nesse dia Seu Gilberto é notado. "Parece até que eu já morri", desabafa nosso herói problemático. E falando em morte, perguntado se ele teme a fealdade do horrível transe, Seu Gilberto suspira: "Só não quero morrer abandonado, esquecido num canto como indigente...".

Estudar não é lixo: é luxo

Se a vida de Seu Gilberto é como a de um morto-vivo, Francisco sobrevive recolhendo a sujeira nossa de cada dia. O caminhão de lixo é o seu posto de trabalho de onde ele enxerga a cidadezinha. “Tem coisa que nem devia tá no lixo, mas o pessoal joga fora”, lamenta Francisco e seus 23 anos de vida na zona rural de Campo Maior. De família pobre, o sexto filho a nascer, ele e os irmãos tiveram apenas os avós para colocar comida na mesa. Muito cedo lhe acabou a infância e veio o trabalho de vender bombons pelos povoados vizinhos.

O colégio ficava a quilômetros de casa e o ônibus escolar não chegava até a escola (!!!). O pouco tempo de estudos ensinou a Francisco alguns capítulos da vida, mas o mundo ia cobrar-lhe o livro inteiro. E assim, Francisco seguiu arranjando o serviço que aparecesse: ajudante de pedreiro, capinador, caseiro, zelador, vigia de cemitério (ia trabalhar com Seu Gilberto, mas outro francisco chegara antes). Aí veio o trabalho de lixeiro. “No começo achei ruim mexer com lixo, mas a gente se acostuma com tudo na vida... Aí percebi que ninguém me via: as pessoas só veem o caminhão de lixo chegando”. Um sonho? “Voltar a estudar!”

A Mulher Invisível

Dona de uma beleza cansada, ela chega cedo na casa dos patrões e se prepara para a batalha de uma empregada doméstica. Ela passa, lava e cozinha. Roupa, pratos e comida. Varre, enxuga e espana. Chão, louças e móveis. Arruma, limpa e serve. Casa, quintal e patrões. Entre uma ação e outra, ela sonha dias melhores: “Quero é ter forças pra formar minha filha na universidade”. Mãe em tempo integral, quando pode, fala com a filha pelo celular: “A menina estuda enfermagem na capital e mora com uma tia”.

O pai da universitária partiu cedo para nunca mais voltar. A mãe mora de aluguel no bairro Fripisa, acorda cedo todo dia e paga as contas. Faltar ao trabalho só em caso de doença. “Eu passo mais tempo no serviço do que meus patrões na própria casa”. Do serviço para sua casinha? “Não, senhor, tenho escola à noite”. Certa vez ela encontrou o patrão e os amigos dele num shopping de Teresina (PI), mas o chefe fingiu que não a conhecia... Ela é apenas notada pelo trabalho que executa, como se não existisse além disso. “O que é mais importante, seu moço, a pessoa ou o que ela faz? Gente, eu existo!” Esta é dona Maria, 38 anos.

Os eventos acima bem que poderiam ser obra de ficção: os nomes são fictícios, as histórias, reais. Este é apenas o encontro da vida com a dura realidade nossa de cada dia. Literatura? Jornalismo? Não, isso são as vidas que ninguém vê.

Mais notícias

Black Fraude

crônica

Black Fraude

Sobrinho alado

crônica

Sobrinho alado